Criar personagens com interesses opostos que convivem no mesmo ambiente é um recurso bastante utilizado pelos autores de novelas e minisséries. Desde a empregada que chantageia a patroa ou o parente de olho no dinheiro da família, muitas são as opções de atrito. Uma combinação que, na maioria das vezes, é quase que garantia de cenas de conflito.
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Além disso, a proximidade também abre um leque maior de alternativas de situações convincentes de vilania. Foi nisso que João Emanuel Carneiro pensou quando reescreveu algumas cenas de A Favorita. No lugar de colocar Donatela (Claudia Raia) pagando um homem para fingir que foi atacado por Flora (Patrícia Pillar), o autor preferiu colocar a culpa no mordomo.
Assim, João fez com que Silveirinha (Ari Fontoura) manipulasse as duas personagens principais da novela. "Achei pesado, tinha passado do ponto. Gostei mais assim e ajudou a conduzir a história para a situação atual, com a Flora assassina e o Silveirinha ao lado dela", assume o autor.
Mas nem sempre os inimigos íntimos são os grandes vilões. Em Três Irmãs, Waldete está longe de ser má. Mas, para infernizar a vida da inescrupulosa Violeta (Vera Holtz), ela chantageou a megera e se transformou em governanta da casa da vilã.
O papel foi criado especialmente para a atriz Regina Duarte, que enxergou nessa convivência entre as duas uma possibilidade de voltar a fazer humor. "Queria brincar nessa novela e essa relação diária de Waldete e Violeta dá bastante espaço para isso", analisa a atriz.
E Antônio Calmon, autor da novela, pretende seguir a linha de raciocínio da atriz. "É um papel construído junto com a Regina. Além da proximidade das duas ser um atrativo, unir Regina Duarte e Vera Holtz já garante tomadas imperdíveis", supõe.
Cristianne Fridman optou por aproximar seu núcleo de vilões com a mocinha de Chamas da Vida, da Record. No início da história, Carolina (Juliana Silveira) namorava Tomás (Bruno Ferrari) e suas famílias eram amigas de longa data. Mas a relação era, na verdade, um grande plano de vingança do rapaz e sua mãe, a cruel Vilma (Lucinha Lins), que só pensam em arrancar o dinheiro da família de Carolina.
"Além de criar a situação mais inesperada, acredito que a proximidade do vilão com a mocinha revolte mais o público. Ainda mais quando existe um laço familiar ou de amizade", opina.
Em Anjo Mau, Susana Vieira interpretou a babá Nice e também estava de olho em dinheiro. Na trama, sua ambição a levava a armar situações que a ajudassem a conquistar o ricaço Rodrigo (José Wilker), herdeiro da família Medeiros, donos da mansão.
Dois anos depois, a atriz trocou de posição e encarnou a ingênua Marina, que sofria com as crueldades da governanta Juliana em A Sucessora. Nathália Timberg, que interpretava a serviçal, não acredita que a proximidade entre as duas tornasse as situações mais críveis. Mas reconhece que isso movimentava a história a todo o momento.
"Um simples café da manhã já era um prato cheio para cenas densas e de conflito", lembra-se.
Situação semelhante à da minissérie O Primo Basílio, onde uma outra Juliana (Marília Pêra) enlouquecia a vida da patroa adúltera Luísa (Giulia Gam).
Gilberto Braga e Ricardo Linhares são adeptos da mesma estratégia. Em Celebridade, fizeram a vilã Laura (Cláudia Abreu) enganar a mocinha Maria Clara (Malu Mader) a tal ponto que conseguiu se mudar para a casa dela, tornando-se amiga e braço direito da promoter.
Em Paraíso Tropical, a gêmea má Taís não sabia muito sobre a vida de Paula, a mocinha, ambas interpretadas por Alessandra Negrini. Mas, em determinado momento, os autores deram um jeito de fazê-la conseguir informações sobre todos os passos da rival.
"A Taís infiltrou o Ivan (Bruno Gagliasso) no albergue onde a irmã Paula trabalhava", lembra-se Ricardo, que assume que essa proximidade facilita a vida do autor. Mas não pode servir para conduzir toda a história. "A dificuldade em bolar novos golpes é um desafio para os autores e isso faz a trama andar".
Tempo certo
Apesar de facilitar o trabalho, nem todos os autores conseguem manter os inimigos íntimos tão próximos durante muito tempo. Em Celebridade, por exemplo, em determinado momento da novela, Maria Clara percebia algo errado na "amiga" Laura e a mandava embora de casa e da empresa.
A partir daí, Ricardo Linhares e Gilberto Braga precisaram se esforçar mais para encontrar armações convincentes da vilã contra a mocinha.
"Ficou mais difícil, mas dramaturgicamente Laura não poderia ficar mais tempo na casa de Maria Clara para não desacreditar a protagonista", avalia Ricardo.
Cristianne Fridman também precisou afastar um pouco o vilão Tomás da mocinha Carolina para movimentar sua trama. Mas só um pouco. "Os dois continuam com uma relação de amizade. Esse laço agora serve como canal da vilania dele", justifica.
Cristianne assume que essa proximidade facilita seu trabalho. E defende que é uma forma de prender a atenção do telespectador. "Dá aquela sensação de filme de terror, quando a faca se aproxima sem que o mocinho veja", exagera.
Instantâneas
# Em Amor e Intrigas, exibida pela Record, Valquíria (Renata Dominguez) dava um golpe na mãe logo no primeiro capítulo. Alice, a irmã mais velha, passava então a persegui-la ao longo de todos os capítulos
# Em Sonho Meu, de Marcílio Moraes, Lucas e Jorge, de Leonardo Vieira e Fábio Assunção, viviam dois irmãos que disputavam o amor da mocinha Cláudia (Patrícia França). O segundo deles se mostrava ao longo da trama o grande vilão, agindo como psicopata
# Maria de Fátima, personagem de Glória Pires em Vale Tudo, tinha vergonha da mãe Raquel e chegou a vender a casa da família sem avisá-la
# Anjo Mau ganhou uma segunda versão em 1997, com Glória Pires no papel principal. Na época, a empatia do público com a vilã foi tão forte que o final da história foi alterado. Sua personagem não só sobreviveu ao parto como também conquistou o amor do ricaço Rodrigo, desta vez de Kadu Moliterno.
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